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Tá na mídia: a preservação do patrimônio cultural como gerador de oportunidades

Em entrevista para o Jornal do Comércio, o conselheiro do CAU/RS, José Daniel Craidy Simões, discute como preservar do patrimônio, uso econômico dos imóveis históricos e a necessidade de políticas públicas integradas.

preservar

Preservar o patrimônio histórico é ter mais um elemento gerador de oportunidades. Em entrevista ao Jornal do Comércio, o conselheiro do CAU/RS, José Daniel Craidy Simões, defende que bens culturais sejam compreendidos como ativos capazes de gerar uso, renda e vitalidade urbana, e aponta a necessidade de políticas públicas que articulem poder público e proprietários para garantir preservação efetiva, informação e continuidade das ações. Confira a entrevista completa!

“Preservar por preservar não é a solução”, defende o Conselho de Arquitetura e Urbanismo

Ana Esteves, especial para o JC

A preservação do patrimônio histórico sempre foi um tema controverso e parece que a possibilidade de conservar a memória das edificações, aliada à geração de renda, dá uma nova luz ao tema. Nesta entrevista, o conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) e coordenador da Comissão de Patrimônio Cultural e coordenador adjunto da Comissão de Organização e Administração do CAU/RS, José Daniel Craidy Simões, destaca que preservar por preservar não é a saída, pois bens do patrimônio cultural devem ser vistos como elementos geradores de oportunidades de negócios e que deveriam existir políticas públicas para o setor, unindo o poder público e os proprietários dos imóveis.

Empresas & Negócios – É possível falar em tendência de restauro de patrimônio histórico com vistas ao uso econômico desses espaços? Para turismo, cultura, gastronomia?

José Daniel Craidy Simões – Via de regra, os bens do patrimônio cultural são entendidos numa visão de proprietários, que têm a obrigação de mantê-los. Esta abordagem que estás trazendo, sobre patrimônio para geração de emprego e renda, é muito importante, pois um prédio antigo, cheio de memória, realmente deveria ser entendido como elemento gerador de oportunidades de negócios. Mas esse interesse em empreender em casas históricas ainda é eventual e depende muito da localização de cada uma delas. Casas ideais para negócios quase sempre têm estacionamento próximo, têm relação direta com o consumidor, por estar no percurso que ele faz casa, trabalho, entre outros fatores.

E&N E como o senhor avalia essa proposta de algumas construtoras de preservar fachadas e, até mesmo casas inteiras, e construir edifícios modernos contíguos?

Simões – O termo preservação, por si só, já define: é a manutenção de um prédio com importância simbólica e histórica para a sociedade. Quando se fragmenta essa edificação, estamos partindo para outro tipo de abordagem que se afasta da ideia de preservação. E o problema é quando isso vira uma prática muito corrente, como tem ocorrido em Porto Alegre. À medida que temos políticas que determinam que só a fachada é importante, corre-se o risco de uma deturpação da ideia de preservação.

E&N – No Centro Histórico tem uma série de garagens e até centros gastronômicos onde se mantém apenas a fachada da casa histórica. Como tem funcionado essa questão, pois muito pouco efetivamente se preserva?

Simões – Teve uma fase anterior à primeira lei do inventário, em que se reconheceu que apenas as fachadas deveriam ser preservadas em alguns endereços. E isso gerou uma série de estacionamentos, nos quais as pessoas demoliam o corpo das edificações e mantinham a fachada. Na rua Andrade Neves, no Centro Histórico, a gente encontra alguns casos assim.

E&N – Como tem sido esse processo de manter apenas as fachadas e há quanto tempo, em Porto Alegre?

Simões – Na Capital, essa situação começa no final dos anos 1980, mais ou menos, com o caso da Rua Duque de Caxias. Esse é um tema que eu abordei inclusive na minha tese de doutorado, pois preservar por preservar não é uma solução. Deixar só a fachada não significa preservar. Deveriam existir políticas entre o poder público e os proprietários que obrigassem à manutenção desses prédios inteiros. Deveria, inclusive, ser feito um trabalho de conscientização e informação dos proprietários dessas casas sobre as infinitas possibilidades que uma edificação histórica reúne.

“O termo preservação, por si só, já define: é a manutenção de um prédio com importância simbólica e histórica para a sociedade.”
— José Daniel Craidy Simões, conselheiro do CAU/RS

E&N – Como funciona essa relação com os donos dos imóveis? Será que eles têm noção de que têm em mãos uma peça rara da arquitetura e que podem transformá-la numa entidade de geração de renda?

Simões – Eles recebem a notícia de que a casa deles faz parte do conjunto de bens do patrimônio, mas eles não recebem informações sobre editais que possam participar voltados à preservação, fontes de fomento, políticas públicas de financiamento. Via de regra, os proprietários não sabem nada disso. Em paralelo, vai-se gerando uma ideia de que esse tipo de propriedade é um problema. As possibilidades de fomento da minha propriedade existem, mas eu não conheço. E isso, ao longo de décadas, vai gerando um grande problema. A descontinuidade de políticas públicas gera uma complexidade muito danosa para a cidade de forma geral. Falta de informação é um obstáculo muito grande.

E&N – E como costumam ser as edificações mais atraentes para a implantação de negócios?

Simões – O que diferencia um lugar do outro? O local onde essas casas estão, mas sobretudo a relação que elas têm com a população. Essas edificações que perduram ao longo do tempo e são usadas comercialmente são muito bem localizadas. Elas têm um destaque arquitetônico que foi pensado a partir de um cenário urbano economicamente pujante, no passado, o que gera uma fachada interessante. Isso tudo dá a possibilidade de longevidade de uma atividade econômica nessas casas. Elas oferecem toda uma linguagem, um aspecto histórico, identitário, que são muito interessantes e que diferenciam e destacam um lugar do outro. A localização é chave e é isso que torna as cidades interessantes, porque a gente tem ingredientes que são próprios dali, são autênticos.

E&N Recentemente, duas casas históricas do Centro de Porto Alegre foram demolidas, após terem sofrido um incêndio. Na época, o CAU lançou uma nota questionando se havia real necessidade de demolição. Parece existir uma vulnerabilidade muito grande dessas edificações. Como vocês veem essas questões?

Simões – Acredito firmemente que as fachadas poderiam ter sido preservadas, mas esse tipo de análise depende de um laudo de um responsável técnico sobre elas. Solicitamos a existência deste documento à Prefeitura de Porto Alegre, mas até agora não tivemos respostas. Achamos muito estranho um incêndio ali, um mês depois da demolição do esqueleto. Pega fogo e, em seguida, demolem. Não tem como afirmar que uma coisa esteja relacionada com a outra, mas gera uma desconfiança. Boa parte dos imóveis do Centro, entendidos como patrimônio cultural, tem ou teve uma relação direta com atividade comercial. A cidade de Porto Alegre, que teve uma atividade portuária durante toda sua pujança econômica, era cheia de casas de comércio de diferentes escalas. Só que é preciso ter cuidado para não privilegiar a importância econômica de determinada edificação em detrimento da sua importância cultural.

Conteúdo do Jornal do Comércio, caderno Empresas & Negócios. Publicado em 15 de dezembro de 2025.

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