Mapeando Memórias é um projeto de extensão da Universidade Franciscana (UFN) que propõe novos olhares sobre o patrimônio arquitetônico e cultural de Santa Maria (RS). A iniciativa utiliza a realidade virtual para criar ambientes digitais imersivos em 3D do Museu Franciscano e da Estação Férrea da cidade.
O projeto foi contemplado pelo Edital de Educação Patrimonial do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) de 2025.
A proposta aproxima a população do patrimônio edificado por meio da tecnologia, contribuindo para a educação patrimonial e ampliando o acesso ao turismo cultural digital. Para o CAU/RS, ações como essa contribuem para que a sociedade compreenda, valorize e preserve o patrimônio cultural como um bem coletivo, capaz de contar a história da cidade por meio da arquitetura e dos espaços urbanos.
O que é o projeto?
O projeto Mapeando Memórias é idealizado pela arquiteta e pesquisadora Natália Diehl, em parceria com o grupo de pesquisa Inovação e Tecnologia em Arquitetura e Design (ITAD), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A ideia do projeto surgiu como um posicionamento frente à aprovação da nova legislação de uso e ocupação do solo urbano de Santa Maria, que fragilizou a proteção do patrimônio arquitetônico, a qual era anteriormente garantida pela Zona 2 – Centro Histórico.
Com a nova legislação, deixou de ser exigida a avaliação do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural de Santa Maria (COMPHIC-SM) para intervenções (e demolições) de edifícios não tombados, ampliando o risco de perda de diversos bens relevantes para a história local.
Diante desse contexto, Mapeando Memórias propõe educação patrimonial, incentivando o reconhecimento, a valorização e o cuidado com o acervo que representa a memória arquitetônica e urbana da cidade.
A iniciativa de participação no Edital de Apoio à Educação Patrimonial do CAU/RS teve início a partir da integração entre as pesquisas desenvolvidas pela doutoranda Natália Diehl e pela pós-doutoranda Dra. Clarissa Pereira. Por meio do edital, o projeto de extensão poderia ampliar seu alcance e aprofundar as abordagens do grupo de pesquisa, incorporando tecnologias de captura da realidade como estratégia de documentação, análise e difusão do patrimônio cultural.
O Processo
Segundo Natália Diehl, os encontros presenciais vinculados ao mapeamento das edificações foram etapas especialmente significativas. Eles ampliaram o diálogo para além do curso de Arquitetura e Urbanismo, envolvendo a comunidade e gerando novas narrativas, ideias e memórias compartilhadas.
“Esses encontros reafirmam o patrimônio como um espaço vivo, construído coletivamente a partir das experiências e das memórias das pessoas”, destaca.
De forma complementar, Natália ressalta que a etapa de virtualização dos bens estudados também marcou o desenvolvimento do projeto. Após a digitalização das edificações, a inserção de conteúdos já produzidos, como artigos e publicações sobre a história dos bens, diretamente no ambiente virtual, permitiu uma compreensão mais aprofundada da trajetória histórica das edificações e dos processos de intervenção e restauração. “Ao visualizar essas informações nos próprios modelos digitais, é possível compreender o patrimônio para além de sua materialidade, reconhecendo seus significados ao longo do tempo”, afirma.
Em conjunto, essas etapas reafirmam o propósito do Mapeando Memórias de cuidar não apenas da materialidade das edificações, mas de reconhecer o patrimônio como um lugar vivo, carregado de significados e memórias coletivas.
Tecnologia e mapeamento
O projeto utilizou a tecnologia de captura da realidade Matterport, com apoio da Geosurvey Tecnologias, para realizar o levantamento cadastral do Museu Franciscano e da Estação Férrea.
O processo envolveu escaneamento a laser e fotogrametria, resultando em uma plataforma digital que permite visitar virtualmente os espaços e acessar informações históricas e curiosidades sobre cada edificação.
No total, foram identificadas 33 edificações representativas dos estilos eclético, art déco e moderno, que representam símbolos de diferentes fases do desenvolvimento da cidade, e unidas em um projeto acessível à população.
Com a ampliação do projeto, outros lugares e elementos representativos da cultura local também passaram a ser reconhecidos, levando à criação de um Roteiro Cultural, voltado à valorização de diferentes expressões do patrimônio material e imaterial da cidade. Para 2026, há a perspectiva de fundamentar a Rota Negra do Rosário.

Acessibilidade, educação e salvaguarda
O acesso digital ao Museu Franciscano e à Estação Férrea funciona como estratégia de salvaguarda do patrimônio. Futuramente, há possibilidade de integrar sensores de monitoramento de fluxo de pessoas, umidade, temperatura e luminosidade.
O projeto também instalou placas com QR Codes em fachadas de edifícios, permitindo que moradores e visitantes acessem conteúdos históricos diretamente no local.
No Instagram do projeto, são realizadas ações complementares, que incluem a eventos, a criação de modelos expositivos e o desenvolvimento de jogos educativos voltados à educação patrimonial. A proposta conecta o espaço urbano à memória coletiva, estimulando o reconhecimento do patrimônio como parte da identidade local.
A ação também faz parte dos programas integrantes do Comitê do Distrito Criativo Centro-Gare e, atualmente, pertence às ações da UFN no âmbito de Rede UniTwin da Unesco – Cidade que Educa e Transforma.
Museu Franciscano: História e Cultura
O Museu Histórico e Cultural das Irmãs Franciscanas (MHIF), fundado em 2007, preserva e divulga o legado das Irmãs Franciscanas que chegaram à cidade de Santa Maria, no Sul do país, em 1903. O Museu destaca sua história na educação, saúde e fé, através de exposições que mostram a vida religiosa, objetos litúrgicos e o impacto cultural na região. O Museu foi incluído no roteiro Art Déco do Mapeando Memórias.
Estação Férrea
Erguida no final do século XIX, a Estação Férrea de Santa Maria, também conhecida como “Gare”, centralizava uma linha que ligava Porto Alegre a Uruguaiana, com
saída de outra linha em direção norte, que levava até Marcelino Ramos na divisa com Santa Catarina. O trecho seguia cortando os estados do sul, chegando até Itararé, em São Paulo.
As ferrovias gaúchas viveram seu auge até 1957, quando uma empresa federal foi criada para abranger toda a malha ferroviária brasileira. O aumento das rodovias impulsionou o uso de carros e caminhões, principalmente nos anos 1960 e 1970, e fez com que muitas viagens de trem diminuíssem, até pararam de vez, como ocorreu em Santa Maria em 1996.
Abandonada e pouco usada desde então, a Gare de Santa Maria agora volta a ganhar vida sendo usada para eventos culturais, conectando o passado de imigrantes e o progresso gaúcho.
Educação Patrimonial e o CAU/RS
O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul tem como compromisso institucional a valorização e preservação do patrimônio cultural, entendendo a educação patrimonial como uma ferramenta fundamental para esse propósito. Por meio de editais públicos, o Conselho financia publicações, eventos, materiais educativos e ações que promovem a conscientização sobre a importância do patrimônio edificado e da memória coletiva.
O apoio do CAU/RS, enquanto entidade responsável por regulamentar e orientar as práticas profissionais é fundamental em iniciativas de educação patrimonial, assim fortalecendo e legitimando iniciativas voltadas à valorização do patrimônio arquitetônico e cultural. Tendo como objetivo aproximar o olhar da população sobre o patrimônio, reconhecendo-o como um conjunto de lugares com potencial para novos usos e significados.
Ao fomentar projetos dessa natureza, o CAU/RS contribui para a ampliação dos campos de atuação profissional, estimulando abordagens inovadoras e promovendo a construção de uma consciência coletiva sobre a importância do patrimônio edificado. Além disso, essas ações possibilitam a aproximação entre pesquisas desenvolvidas no âmbito acadêmico e o mercado profissional, impulsionando novas formas de compreender, intervir e valorizar o ambiente construído existente.
O CAU/RS acredita que fortalecer o senso de pertencimento da sociedade e estimular a responsabilidade coletiva são caminhos essenciais para a preservação, além de valorizar a atuação dos arquitetos e urbanistas nesse processo. No contexto do Rio Grande do Sul, essa atuação é ainda mais relevante diante da diversidade e riqueza arquitetônica do estado, sendo parte da missão do Conselho garantir que o patrimônio cultural siga como elemento vivo da identidade local e da construção de cidades mais sustentáveis.
Equipe do Projeto
Desenvolvida de forma multidisciplinar, a atividade integra estudantes e docentes de áreas como arquitetura, design, jornalismo e comunicação com o objetivo de resgatar e difundir a memória arquitetônica e cultural do Centro Histórico de Santa Maria.
Coordenação do projeto
Clarissa de Oliveira Pereira
Equipe docente – Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFN:
Clarissa de Oliveira Pereira
Anelis Rolão Flôres
Francisco Queruz
Cristian Fagundes
Roberto Osvaldo Gerhardt – Docente colaborador do curso de Design
Neli Fabiane Mombelli – Docente colaboradora do curso de Jornalismo
Discentes
Alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFN
Bolsistas dos programas PROBEX e PROBIC
Voluntários
Pessoas externas à graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFN, engajadas na preservação do patrimônio cultural
Apoio institucional
Gabinete da UFN
Caroline Cechin
Émerson Gaspar


